"Eu abri o livro. Aquele mesmo livro que vocÊ me deu tempos atrás. Entre as páginas, ainda novas, um bilhete seu. Uma vontade minha de correr por onde eu jamais tentei ir. Aquele bilhete. Encontrei naquela noite a simples vontade de ter você entre o meu corpo e o espaço que o habita hoje. Como sempre fazíamos. O amor em troca do sexo. O amargo sabor daquilo que ficou à frente de nossos desejos. Um dia fomos intensos como raios solares, como raios na tempestade. Um dia, sonhadores, matamos, como diria a letra, a sede na saliva. O que era de nós, restou naquele bilhete antigo. No meio daquelas páginas intocadas, eu vi o que fomos um dia. Troquei o vaso de flores do corredor. No lugar, plantei flores artificiais como se eu quisesse entregar àquelas flores um sentido de imortalidade; assim, como na memória guardada. A finco eu estranhei quando minhas mãos tocaram meu corpo procurando um pouco daquilo que tinha na sua pele. Será que era o cheiro? Todas as vezes em que você trepava. É, talvez o sentido seja lembrar sempre. A trepa e o bilhete. Isso tudo é a fúria de um dia, de duas noites, de uma saudade ou de um verdadeiro gozo; puro prazer. E por que diabos fui abrir aquele livro escondido? Eu queria, breve, saber se ainda tinha um pedaço de vocÊ naquelas páginas. Encontrei o bilhete e o esfreguei entre as pernas, deitei as costas nele, amassei as portas com os pés e, por fim, mastiguei o bilhete como se ele fosse a sua boca. Deixei cair no resto de você dentro de mim. Sim, aquele era o bilhete. O que mais eu deveria fazer? A lembrança de uma trepada por cima do piano, entre a mesa de trabalho e a cozinha. E por que diabos fui abrir aquele livro?"
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
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